Em Hong Kong, tensão sobe contra lei de deportação à China

Hong Kong tem os maiores protestos desde 1997 para evitar que cidadãos sejam deportados para julgamento na China

A província de Hong Kong vive uma semana decisiva em sua condição de região administrativa especial da China. Milhares de pessoas têm ido às ruas para protestar contra uma nova lei que pode fazer com que habitantes da ilha pudessem ser deportados para a China caso cometam crimes.

Nesta quarta-feira, 12, protestos voltaram a ocorrer ao longo do dia (madrugada pelo horário de Brasília), com parte do comércio local fechado. Pela primeira vez desde o início das manifestações, há uma semana, houve confrontos com policiai, que usaram balas de borracha contra os manifestantes, segundo a agência Reuters. No fim de semana, um gigantesco ato levou mais de 1 milhão de pessoas às ruas, nada menos que um em cada sete habitantes da ilha.

O Parlamento de Hong Kong discutiu a regra de deportação ao longo de toda esta madrugada, e o presidente do Legislativo, Andrew Leung, colocou a noite de quinta-feira, 13, como prazo máximo para a votação (a pressa também foi criticada por juristas).

Há grande possibilidade de aprovação do texto, o que preocupa a população local, que considera a Justiça chinesa parcial e pouco transparente. Há o temor de que a lei seja usada contra adversários políticos ou mesmo contra jornalistas ou estrangeiros em viagem. A chefe do governo de Hong Kong, Carrie Lam, é próxima ao governo central em Pequim e diz que a nova regra serviria para que crimes fora da província fossem julgados no local do delito.

Hong Kong faz parte do território chinês mas, como colônia do Reino Unido até 1997, tem um governo independente e goza de maior liberdade do que o resto da China (ainda que, nos últimos anos, líderes da oposição tenham sido desqualificados e até presos). Por isso, a província é um polo de negócios na Ásia ao unir a proximidade com o valioso mercado chinês à livre circulação de ideias.

Não é a primeira vez que Hong Kong enfrenta protestos para evitar mudanças apoiadas por Pequim. Dentre os atos mais marcantes estão os de 1997, contra a transferência do domínio inglês para o chinês, e de 2014, com os “guarda-chuvas amarelos” pedindo eleições livres. Em 2003, manifestações conseguiram impedir a aprovação de uma restrita lei de segurança nacional. Na semana passada, no aniversário de 30 anos do massacre da Praça da Paz Celestial (em que o governo chinês matou centenas de manifestantes em 1989), milhares de cidadãos também foram às ruas em Hong Kong, em uma marcha pacífica, para lembrar o episódio.

Os protestos desta semana não devem ser suficientes para impedir as deportações de serem aprovadas, mas, em momento em que a China enfrenta guerra comercial contra os Estados Unidos, tudo o que o país menos quer são holofotes negativos no exterior. Os frequentes protestos mostram que a população de Hong Kong está disposta a brigar. (Ex)