Crise venezuelana deixa 3,7 milhões passando fome

Fome cresceu em toda a América do Sul, impulsionada especialmente pela situação na Venezuela, diz ONU

Dados divulgados nesta segunda-feira (10) por agências da ONU apontam que a crise na Venezuela deixou 3,7 milhões de pessoas passando fome. Em 2011, eram 900.000 famintos – número quatro vezes menor.Segundo a FAO, agência das Nações Unidas especializada em alimentação e agricultura, a proporção da população desnutrida na Venezuela caiu de 10,5%, em 2005, para 3,6%, em 2011. Mas, desde então, a alta foi constante. Hoje, o número é de 11,7%.

Os números também indicam que a fome cresceu no ano passado em toda a América Latina e Caribe, afetando cerca de 39 milhões de pessoas. A crise é motivada pela desaceleração econômica na América do Sul, marcada especialmente pelo caso da Venezuela, explicou a ONU.

Apesar dos dados, o chanceler venezuelano Jorge Arreaza denunciou nesta segunda-feira (10) na ONU a ameaça de uma intervenção em seu país e alertou que a crise econômica está sendo “manipulada” e “promovida” para justificar um “golpe militar”.

Nicolás Maduro tem se empenhado, nas últimas semanas, em uma campanha para desmentir que a Venezuela vive uma crise humanitária. O governo tem organizado encontros com países aliados para impedir a aprovação de resoluções contra a Venezuela, usando o argumento de que a situação está sendo manipulada.

No fim de semana, o jornal The New York Times afirmou que funcionários do governo de Donald Trump se reuniram em segredo com militares venezuelanos rebeldes para analisar um golpe contra Maduro. Em seu discurso, Arreaza disse que o tema de direitos humanos está sendo usado para justificar uma “intervenção multilateral”.

Nesta segunda, ele se reuniu com a nova chefe de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, depois de quatro anos de um clima de tensão entre a entidade e o governo Maduro. “Denunciamos essas medidas e pedimos, em nome do povo, o fim da agressão política, econômica, ameaça militar e agressão midiática”, disse o chanceler.

Arreaza diz que a Venezuela não vive uma crise humanitária. “Existe uma crise econômica que é resultado das sanções de Estados Unidos e Europa”, afirmou. Em sua avaliação, a pressão pretende “forçar uma mudança de regime”.

“Há um golpe militar sendo preparado para perturbar nossa democracia”, disse. “Talvez, tenhamos muito petróleo e isso nos coloca como objetivo dos grandes interesses capitalistas.”

Para a ONU, porém, a crise está levando a uma aceleração do êxodo de venezuelanos. O alerta foi lançado por Bachelet. “Cerca de 2,3 milhões de pessoas deixaram o país até o dia 1.º de julho, o que representa 7% do total da população”, disse a ex-presidente do Chile. “Esse movimento está se acelerando.”

“Na primeira semana de agosto, mais de 4.000 venezuelanos por dia entraram no Equador, 50 mil chegaram à Colômbia em três semanas de julho e 800 por dia estão entrando no Brasil”, disse Bachelet.

De acordo com ela, desde que a ONU publicou seu último informe, a entidade continuou a receber informação sobre violações de direitos, incluindo prisões arbitrárias e restrição de liberdade de expressão. “O governo não mostrou abertura para medidas genuínas de responsabilidade”, criticou Bachelet.

Desnutrição

Após uma década de avanços no combate à fome, a desnutrição voltou a aumentar no mundo, principalmente na América do Sul e na África.

Dados da ONU divulgados nesta segunda-feira revelam que, em 2017, 821 milhões de pessoas eram consideradas desnutridas. No Brasil, o combate à desnutrição está estagnado desde 2010.

Em um ano, o número saltou de 804 milhões para 821 milhões de pessoas desnutridas em todo o mundo, subindo de 10,6% da população mundial para 10,9%. Isso representa uma em cada nove pessoas.

Apesar da alta, a taxa de 2017 é ainda inferior ao que se registrava no planeta em 2005, quando 14,5% da população estava desnutrida.

Na América do Sul, a desnutrição (ou falta crônica de nutrientes) subiu de 4,7% da população em 2014 para 5% em 2017 ou, em termos absolutos, de 19,3 milhões de habitantes para 21,4 milhões.

(Com Estadão Conteúdo e EFE)